6. GERAL 17.10.12

1. GENTE
2. NOBEL
3. IDEIAS  VALE POR MIL PALAVRAS?
4. IDEIAS  PELO DIREITO DE BRINCAR
5. COMPORTAMENTO  DATA VENIA, SEU PRADA  O MXIMO
6. RELIGIO  OBRA EM ABERTO
7. HISTRIA  O NASCIMENTO DO PS-TUDO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni

MICHELLE, PERCEBEU O RISCO?
 preciso muita autoconfiana para, aos 63 anos, enfrentar as cmeras de televiso com saia quase no limite, sem meia-cala. ANN ROMNEY certamente no  insegura. E a subida do marido, Mitt Romney, nas preferncias do eleitorado americano na disputa presidencial de novembro prximo deu uma ajudazinha. Sobre seu figurino, soube-se que ela gosta de um pouco conhecido estilista, Alfred Fiandaca, e que o marido adora v-la vestida de cor-de-rosa. Mas a base republicana tremeu mesmo foi quando ela apareceu de conjunto de couro preto e sandlias de renda. Ser que andou lendo um certo livro sobre as variedades da cor cinza?

A BONECA ENFEITIADA 
 de verdade ou de mentira? A cabeleireira ucraniana ANASTASIVA SHPAGINA, 19, vive num mundo em que no existem fronteiras entre as duas opes. Ela faz parte de um fenmeno estranho, o das garotas que procuram se transformar em bonecas ou personagens de desenhos animados, especialmente os japoneses. Os olhos assustadoramente grandes so resultado de lentes de contato maiores do que a ris e longas sesses de maquiagem, acompanhadas por fs virtuais. Anastasiya  mida e pesa apenas 38 quilos, mas planeja afinar ainda mais a cintura com a extrao de costelas.  de arrepiar.

UMA CAIXINHA DE SURPRESAS
Harvard  a universidade de acesso mais concorrido do mundo: s 6% dos que tentam so aceitos. Mas quem pode banca um de seus caros cursinhos paralelos, e  essa oportunidade que RENATA FAN, 35, apresentadora do programa de futebol Jogo Aberto, aproveitar. Ela vai fazer um intensivo de ingls durante trs semanas, incluindo professor particular fora das aulas. O investimento a ajudar a superar o fato de nunca ter aprendido ingls, embora sua me seja professora do idioma  Preferia assistir a jogos de futebol com meu pai, lembra. E a tentar realizar o sonho de entrevistar Roger Federer. Trabalho com futebol, vejo dezesseis jogos por semana: mas sou apaixonada por tnis.

O MRITO  TODO DELA
A modelo piauiense LAS RIBEIRO, 21, acaba de contratar um personal trainer. Evidentemente, ela no quer emagrecer. Quer  aumentar a massa crtica para o desfile de lingerie da Victorias Secret que far em novembro. Estou muito magra. Tenho 1,84 metro e 52 quilos, o peso de um bode, brinca a gazela, que h trs anos deixou Miguel Alves, de 32.000 habitantes, para morar em Nova York. Em breve, o governo do Piau vai homenage-la com a medalha de Oficial da Ordem do Mrito Renascena. Ela traz a morenice que nosso sol ressalta, enleva-se o governador Wilson Martins. Legal acharem que o que fao  importante, diz Las. S me falta agora trazer meu filho de 4 anos, que deixei no Piau.


2. NOBEL 
FSICA  FILOSOFIA EXPERIMENTAL
O Nobel foi dado a dois cientistas pela verificao em laboratrio do gato de Schrdinger, morto e vivo ao mesmo tempo, o famoso paradoxo da mecnica quntica.
FILIPE VILICIC

A fsica se transformou em uma filosofia experimental. Essa  a concluso do escritor e pesquisador ingls um Baggott no fim de sua magnfica histria da teoria quntica lanada em livro recentemente e ainda sem traduo para o portugus (The Quantum Story: a History in 40 Moments). O anncio dos ganhadores do Prmio Nobel de Fsica de 2012 feito na semana passada  a reafirmao da concluso de Baggott. O Nobel foi dado ao americano David Wineland, do Instituto Nacional de Tecnologia, no Colorado, e a Serge Haroche, francs de ascendncia judaica nascido no Marrocos, que trabalha na Escola Superior de Paris. Wineland e Haroche so especialistas em tica, um ramo da fsica experimental, aquele que rene cientistas dedicados a testar em laboratrio as formulaes de seus colegas tericos. A dupla foi premiada justamente por ter obtido mtodos experimentais para selecionar, manipular e medir ftons e tomos individualmente, permitindo a observao do mundo subatmico em uma escala que antes era apenas terreno da teoria. Mais precisamente, Wineland e Haroche fizeram experimentos, cada um a sua maneira, capazes de registrar fenmenos na escala quntica.  exatamente nessa escala que a fsica se confunde com a filosofia.
     Com os mtodos desenvolvidos pelos ganhadores do Nobel, tornou-se possvel registrar as relaes entre subpartculas atmicas sem interferir na sua natureza. Esse avano, no feitio paradoxal da fsica quntica, confirma certas premissas, mas contraria seu postulado mais ortodoxo: os elementos de uma realidade emprica so definidos pela natureza do aparelho construdo para fazermos as medies do sistema quntico. Simples, no? Complicadssimo para qualquer pessoa. Albert Einstein, formulador da teoria da relatividade e sinnimo de gnio, nunca se convenceu das mais ousadas teorias qunticas e travou com seus defensores, principalmente com Niels Bohr, alguns dos mais brilhantes embates intelectuais de todos os tempos. Para comeo de conversa, a unidade fundamental dessa teoria, o quanta,  um tijolo microscpico de energia que pode atuar ora como uma partcula, ora como uma onda. As entidades subatmicas obedecem a essa mesma dualidade. Mas  onda ou partcula? Depende de como o observador queira enxerg-las! Se ele usar um medidor de ondas, a partcula se comporta como onda. Se usar outro tipo de medidor, ela se comporta como partcula. Einstein achava isso tudo muito intrigante, mas duvidava de uma explicao cientfica do funcionamento da natureza que dependesse do observador. As coisas ficaram ainda mais complicadas quando os fsicos qunticos formularam o conceito da superposio, cuja melhor ilustrao  um gato vivo e morto ao mesmo tempo. Foi nesse contexto que Einstein resmungou sua famosa e irada frase: Deus no joga dados com o universo.
     Em resposta a um artigo de Einstein questionando a possibilidade de uma mesma partcula apresentar dois estados de existncia, o fsico austraco Erwin Schrdinger, em 1935, criou o famoso experimento imaginrio em que um gato  preso durante uma hora em uma caixa onde j se encontram um pouco de material radioativo e um frasco de gs letal. Na primeira verso da experincia, Schrdinger especificou os ingredientes. O material radioativo era urnio e o gs, cianeto de hidrognio, conhecido como gs prssico. No perodo de uma hora, o urnio pode emitir uma partcula ou ficar inerte. A possibilidade de ocorrer uma coisa ou outra  de 50%. Se o urnio emite a partcula, ela quebra o frasco com o cianeto de hidrognio, o gs escapa e o gato morre. Do contrrio, o gato fica vivo. Como saber sem abrir a caixa? No tem jeito. Estatisticamente, o gato est morto e vivo. Estava demonstrado o princpio quntico.
O problema  que nunca faremos experimentos com um tomo, isolado, lamentou Schrdinger. Bem, 77 anos depois, Wineland e Haroche ganharam o Nobel por realizar experincias do tipo proposto por Schrdinger com tomos e ftons isolados. Em 1996, Wineland usou lasers para estacionar um tomo no meio de um campo eletromagntico e faz-lo aparecer em dois lugares. No mesmo ano. Haroche fez experimento similar. Isolou ftons entre espelhos dentro de um campo eletromagntico. Presos, os ftons ficaram imveis por um dcimo de segundo, uma enormidade na escala quntica. Em um dcimo de segundo um fton pode percorrer 40.000 quilmetros, uma volta ao redor da Terra. Wineland e Haroche conseguiram registrar essas partculas  girando sobre o prprio eixo ao mesmo tempo para cima e para baixo, paradas e se movendo, ou seja, exibindo comportamentos que contrariam o senso comum. Mas essa  a chave da fsica quntica. Einstein a reduzia a uma ferramenta estatstica que poderia ser til para prever eventos subatmicos sem a necessidade de fazer custosas experincias prticas. Por seus paradoxos e abstraes surrealistas, a filosofia experimental continua avanando.  iluso, porm, achar que ela pode ser compreendida facilmente. O que mais irrita os fsicos clssicos e qunticos  a liberdade com que seus postulados so usados por adivinhos, gurus e charlates de todos os tipos que explicam qualquer coisa com a expresso isso  quntico. A fsica se tornou muitssimo complexa por submeter suas formulaes aos nveis mais extremos do rigor matemtico  no para servir de fachada para o obscurantismo.

 a teoria que decide o que pode ser observado. A observao  um processo muito complexo. - ALBERT EINSTEIN, crtico inconformado com a ideia central da mecnica quntica, segundo a qual qualquer aparato capaz de observar um fenmeno naquela escala vai interferir e modificar sua natureza na deteco.

Qualquer um que no se chocou com a teoria quntica no entendeu uma palavra. - NIELS BOHR, um dos criadores do modelo do tmo, em 1927.


MEDICINA  EMBRIES DA REVOLUO
Pioneiros nas reas de estudos com clulas-tronco e clonagem foram os vencedores de 2012.
     A clonagem e as clulas-tronco esto sob os holofotes da medicina. A possibilidade de transformar clulas embrionrias em quaisquer outras  a esperana para o tratamento de doenas como as cardacas, diabetes e cncer. Serve ainda de soluo para pesquisas farmacuticas. Em vez de os medicamentos serem testados em pessoas, usam-se clulas-tronco. O Nobel de Medicina deste ano premiou os dois campos. Foram laureados o bilogo ingls John Gurdon, da Universidade de Cambridge, e o mdico japons Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto. Em suas pesquisas, separadas por 44 anos, eles abriram novos caminhos para a medicina. Em 1962, Gurdon criou o primeiro clone de um animal. Com radiao ultravioleta, eliminou o ncleo de um vulo de girino e o substituiu pelo de uma clula do intestino. A partir disso, gerou clones. A experincia suscitou questes ticas. A principal: a de gerar, com cincia, uma vida. Mas ningum mais duvida do poder revolucionrio da clonagem.
     O japons Yamanaka inspirou-se no ingls para os estudos que o levaram ao Nobel. Sua pesquisa pode encerrar o debate pela aprovao ou no de clulas-tronco pela sociedade. Em 2006, ao trabalhar com pele de camundongo, Yamanaka identificou genes que fazem com que clulas-tronco embrionrias se transformem em outras clulas. Como se obtm essas clulas de qualquer parte do corpo humano, a tcnica de Yamanaka eliminaria a controversa necessidade de sacrificar embries. At agora, via-se isso como uma impossibilidade. 
ALEXANDRE SALVADOR

QUMICA  AVISOS AO ORGANISMO
Dupla decifrou o modo pelo qual reagimos a estmulos.
     Os cientistas americanos Robert Lefkowitz e Brian Kobilka, das universidades Duke e Stanford, nos Estados Unidos, receberam o Nobel de Qumica por ter decifrado como o corpo reage a estmulos externos e internos. A dupla analisou os chamados receptores de protena G. Presentes na maioria das clulas, esses receptores so ativados por hormnios, remdios ou mesmo sinais olfativos e visuais. Quando percebe uma situao de perigo, por exemplo, o corpo libera uma enorme quantidade de adrenalina na corrente sangunea. Esse hormnio viaja pelo corpo e, ao entrar em contato com os receptores de protena G, desencadeia alguma reao dentro da clula.  o que resulta no batimento cardaco acelerado, nos brnquios expandidos e na viso atenta que caracterizam uma pessoa amedrontada. 
ALEXANDRE SALVADOR

LITERATURA  NO FALE
     No jargo que lhe  prprio, a Academia Sueca definiu a obra do chins Mo Yan como realismo alucinatrio que funde contos folclricos, histria e contemporaneidade. Nascido em 1955, o mais recente Nobel de Literatura compe, em romances como A Vida e a Morte Esto Me Cansando, amplos painis da histria chinesa recente, pontuados com referncias mitolgicas e elementos fantsticos.
     Seu nome de batismo  Guan Mo; o pseudnimo Mo Yan significa no fale. Livros como Peitos Grandes e Ancas Largas tiveram problemas com a censura. Ao mesmo tempo, Mo Yan  um escritor confortavelmente instalado no establishment chins: seu prmio foi celebrado pelas emissoras estatais, e ele faz parte de uma associao de escritores aprovada pelo Partido Comunista. No h livros de Yan traduzidos no Brasil. 


3. IDEIAS  VALE POR MIL PALAVRAS?
Exposio de fotos manipuladas, no Metropolitan, ilumina o drama moderno: so tantas imagens e  to fcil adulter-las.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Nada foi mais manipulado na histria da fotografia do que o cu. O azul do cu, com seu claro de espanto, era intenso demais para a sensibilidade das primeiras emulses fotogrficas. Uma paisagem era um desafio: ou o cu comparecia em todo o seu esplendor, mas o resto da paisagem virava um borro escuro, ou a paisagem aparecia claramente, mas o cu saa aguado, esbranquiado, desbotado. A soluo encontrada pelos pioneiros da fotografia era engenhosa. Primeiro, faziam um negativo do cu, depois outro negativo da paisagem. No escuro do laboratrio, sobrepunham um negativo ao outro  e assim revelava-se a paisagem na sua inteireza, inclusive a vivacidade do azul-celeste. A manipulao humana era o meio atravs do qual a imagem fotogrfica conseguia traduzir a realidade visvel. Era verdade ou era mentira?
     Em fevereiro de 1990, a Adobe, multinacional americana de programas de computador, lanou um produto inovador no mercado. Chamava-se Photoshop 1.0. Era um editor de imagens digitais. Permitia retrabalhar uma imagem infinitamente: alterar cores, aumentar ou diminuir contrastes, at mesmo eliminar ou acrescentar elementos  cena. A ideia da Adobe era vender o Photoshop a designers grficos e afins, mas a novidade logo chamou a ateno de fotgrafos da indstria da moda e da publicidade, e pouco depois capturou o interesse de artistas e reprteres fotogrficos. Quando finalmente chegaram ao mercado os celulares equipados com cmera digital, no fim dos anos 90, o Photoshop tornou- se popular entre os milhares, milhes de fotgrafos amadores.
     A fotografia que reproduzia a realidade com rigor estava morta e enterrada. A Adobe, que desde ento j produziu outras doze verses mais avanadas do Photoshop, tornou-se a vil mundial do fim da autoridade documental da fotografia. Incomodada com esse posto, a multinacional resolveu patrocinar uma exposio no Metropolitan Museum, em Nova York, para demonstrar que a manipulao fotogrfica  anterior ao advento do Photoshop. A mostra rene mais de 200 trabalhos e narra a fascinante histria da manipulao da fotografia desde o seu nascimento, em 1839. Incidentalmente, a exposio ajuda a iluminar uma combinao dramtica do nosso tempo: numa cultura cada vez mais visual, nunca foi to fcil, e to acessvel, adulterar o mundo visvel.
     Desde que os sumrios inventaram a escrita 4000 anos antes de Cristo, nunca a humanidade viveu uma era to visual. So as televises a cabo com 500 canais, o YouTube, o stream vdeo na internet, as redes sociais de fotografia, como Instagram e Pinterest. O Flickr, um lbum on-line no qual os usurios compartilham fotos entre si, recebe 3000 novas imagens a cada minuto. Hoje, todo mundo  fotgrafo. Em breve, haver 3 bilhes de celulares com cmeras em circulao no planeta. Ao lado da exploso visual, Photoshop e congneres decuplicaram a capacidade de manipular uma imagem. A fertilidade visual do nosso tempo, somada  infinita capacidade de adulterar o mundo visvel,  um convite ao desnorteio: afinal, onde est a verdade visual? 
     A histria humana mostra que temos uma necessidade cultural de reproduzir nosso entorno com o maior rigor possvel. E a fotografia nos fascina porque carrega a promessa  apenas a promessa  de transcrever o mundo com autenticidade. Da nossa relao instvel com a fotografia, ora vista como herona, ora como bandida; ora como arte, ora como documento; ora como verdade, ora como mentira. Mas a fotografia como instrumento capaz de replicar fielmente tudo o que nos rodeia sempre foi mais ideal retrico do que realidade prtica, mais desejo do que conquista  a comear pelos cus do sculo XX.
     Nem por isso renunciamos  autoridade documental da fotografia. E, por isso, geraes foram vtimas das mais grosseiras falsificaes na Unio Sovitica de Stalin, na Alemanha nazista de Hitler. Mas, tambm aqui, a manipulao poltica comeou cedo. O primeiro grande exemplo da desonestidade intelectual a servio da ideologia  algo que no se limita ao passado  ocorreu na Comuna de Paris, em 1871. Sufocado o levante dos parisienses, o governo vencedor fabricou imagens para denunciar a brutalidade e a crueldade dos rebeldes. As fotos esto na exposio do Met. So aberraes, mas aos olhos de hoje. 
     Nem toda manipulao fotogrfica  feita para enganar e trapacear, mas toda manipulao  feita para iludir. Foi assim que chegou  imprensa, fosse para criar uma capa mais agradvel aos olhos, como no exemplo da Saturday Evening Post, fosse para dramatizar um crime com nfase racial, como fez a Time em 1994: chegou s bancas depois de escurecer artificialmente a pele do negro O.J. Simpson. A busca da verdade visual no  sinnimo de pureza visual, um ideal que o modernismo disseminou com o movimento da fotografia pura. Mas a pureza no mbito humano  ideolgica, sexual, racial   a busca de um ideal fascista. Nestes tempos incrdulos,  bom no confundir pureza com verdade.


4. IDEIAS  PELO DIREITO DE BRINCAR
Os lanadores de projteis e dardos de espuma so a nova onda dos meninos. Mas no se preocupe se seu filho pedir uma dessas armas de presente  elas no transformam crianas em bandidos potenciais, ao contrrio.
GABRIELA CARELLI

     O pedido brota implacvel, em forma de splica, muxoxo e sorriso, choro talvez: Pai, me, quero um desses, o meu amigo tem!. O mais recente fenmeno infantil, no topo da lista de desejos de brinquedos de nove entre dez meninos (e de algumas meninas tambm), no  to novo assim.  uma arma de mentirinha, daquelas que os garotos adoram empunhar quando se transportam para o mundo da fantasia e assumem o papel do mocinho ou do vilo, dos alemes e seus canhes, em histrias cheias de heris, princesas a ser resgatadas, drages e monstros espaciais. Ou simplesmente querem atormentar e acertar em cheio o irmo mais novo, ou o priminho abusado. A arma em questo  um dos trinta modelos de lanadores de projteis e dardos de espuma fabricados pela americana Hasbro, onipresentes tambm no Brasil. A empresa no revela quantas unidades vendeu desde que os artefatos caram no gosto de crianas de 5 a 12 aros. O faturamento global do produto, de 410 milhes de dlares em 2011, autoriza um clculo: se os ganhos da fbrica de brinquedos dependessem exclusivamente da venda dos modelos mais caros, em torno de 200 dlares, teria sido comercializado, em doze meses, um arsenal suficiente para armar 2 milhes de guris, o equivalente a uma vez e meia o contingente do Exrcito, da Marinha e da Aeronutica dos Estados Unidos juntos.
     Os lanadores  modo politicamente correto e mais moderno de chamar as armas  nem de longe lembram os revlveres de metal que fizeram a alegria da meninada do passado, alimentados por espoleta. So coloridos, modernosos e foram desenhados para no se parecer em nada com algo blico, tanto na forma quanto no conceito. Tm mecanismos de ar comprimido, baterias, e podem lanar at trs dardos por segundo. Tudo sem ferir ningum. No entanto, em um mundo onde as ideias de correo reinam quase absolutas e as crianas no podem mais atirar o pau no gato, porque isso no se faz (como prega a verso certinha do clssico do cancioneiro infantil Atirei o Pau no Gato), o grau de periculosidade de um brinquedo importa menos do que as atitudes que ele seria capaz de incitar. Ter filho em casa mirando um alvo qualquer com tamanha monstruosidade em mos  percebido pela patrulha da moral e dos bons costumes como irresponsabilidade de pais ausentes, egostas, descompromissados com o futuro da cria e, claro, como no poderia deixar de ser, do planeta. Afinal, dita o senso comum, arma  arma; e violncia gera violncia.
     Todo chavo contm alguma dose de verdade, mas explicar ou justificar a agressividade crescente de crianas e jovens levando-se em conta apenas os estmulos externos aos quais eles so submetidos, sejam brincadeiras de guerra, videogames ou os divertidssimos filmes de super-heris da Marvel,  uma maneira simplista de olhar um tema complexo, alm de retrocesso ao perodo jurssico da cincia do comportamento. No sculo XVII, o filsofo ingls John Locke, ao refletir sobre a mente humana, comparou-a a uma folha em branco, preenchida e moldada ao longo da vida por meio das experincias, da cultura e da educao  os tijolos da personalidade. At hoje, essa construo intelectual de Locke vigora no Ocidente, apesar de ter sido gravemente ferida pela publicao de A Origem das Espcies, de Charles Darwin, em 1859, quando se deu a revelao das bases da transmisso de caractersticas por hereditariedade. Com a descoberta da estrutura do DNA por James Watson e Francis Crick, em 1953, um sculo depois, e a divulgao do Projeto Genoma Humano, em 2000, a doutrina elaborada por Locke perdeu, definitivamente, o espao que conquistara. E abriram-se as portas para uma compreenso indita das razes biolgicas do comportamento humano. Foi possvel, a partir de ento, identificar genes que tornam as pessoas mais vulnerveis a desenvolver transtornos psquicos, atitudes antissociais e vcios, por exemplo. E se o gosto masculino (e pueril) por armas de brinquedo tambm residir a, na gentica, e no no que apreendemos durante a infncia?
     Estudos com gmeos univitelinos, que compartilham a mesma configurao gentica, tm permitido delinear o papel relativo dos genes e do ambiente no desenvolvimento de caractersticas da personalidade. Com esse objetivo, psiclogos da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, acompanham h duas dcadas trs centenas deles, separados da famlia no nascimento. Os achados da equipe surpreendem ao mostrar que comportamentos antes percebidos como fruto do aprendizado tm forte influncia biolgica. Introverso ou extroverso, neurose ou estabilidade, abertura ou no a experincias, capacidade de ateno ou disperso so caractersticas 50% herdadas dos pais. A modulao dos comportamentos agressivos dependeria em 80% da gentica, e o restante resultaria da educao e das experincias pessoais de cada um. Apesar de pouco conclusivos, e com resultados que podem soar como um estmulo ao preconceito, como a constatao de que parte da inteligncia  mesmo coisa de famlia, os estudos de gmeos foram um divisor de guas na infindvel batalha cientfica e filosfica sobre o que pesa mais na formao do carter, o gene ou a cultura. Nem uma coisa s nem outra. Atribuir tudo  herana, na magistral definio do paleontlogo americano Stephen Jay Gould, darwinista de escola,  reducionismo gentico. Tambm no somos apenas um produto cultural.  uma condio que agora comea a ser revelada  luz das molculas pela epigentica, a vertente da biologia escondida atrs desse palavro que estuda a ativao ou no de genes por meio dos fatores externos  no caso da violncia, um episdio real, traumtico, como um assalto, ou, por que no?, uma batalha inspirada nos cavaleiros jedis de Guerra nas Estrelas.
     Brincadeiras com armas existem desde sempre. Estudos antropolgicos mostraram que, tanto em sociedades tribais quanto em pases de Primeiro Mundo, nas mais variadas culturas, as crianas sempre enfrentaram e derrotaram oponentes enormes e furiosos com seus superpoderes em duelos imaginrios do bem contra o mal. As narrativas so uma espcie de treinamento para lidar com as vicissitudes da vida, escreveu o psiclogo americano Jerome Bruner, da Universidade Harvard, um dos mais notveis do sculo XX. Brincar com armas, afirmam os estudiosos do universo infantil,  uma forma de as crianas se sentirem fortes e confiantes para enfrentar os desafios reais e as sucessivas frustraes do longo e penoso crescimento fsico e emocional. A infncia no  o perodo tranquilo e prazeroso que ns, adultos, gostamos de achar que , diz o psiclogo americano Gerard Jones no livro Brincando de Matar Monstros. Muitas crianas so submetidas a episdios dolorosos, como morte dos pais, divrcio, doenas, mas mesmo aquelas que vivem sem atravessar essas experincias ruins deparam todos os dias com a condio de serem pequenas e sem poder. As revelaes sobre a influncia da gentica no comportamento e uma srie de outros achados cientficos, aliados ao bom-senso, tm alterado de forma positiva a maneira pela qual as pessoas enxergam o mundo. Um bom assunto para os pais discutirem quando os monstrinhos  ou seriam anjos?  estiverem dormindo. E, afinal de contas,  tudo brincadeira. Um bom caminho  reagir como o deprimido Woody, o personagem de Toy Story que diante das diatribes do forto eletrnico Buzz Lightyear, dono de uma incrvel arma a laser, o repreende, com medo de perder seu posto de queridinho do ba: Voc  apenas um brinquedo, no  real.

Bang, bang, bang!
Uma pequena histria do arsenal ldico infantojuvenil desde o incio do sculo passado.

Anos 30 
 Na esteira dos filmes de faroeste, chegaram s lojas rplicas de pistolas feitas de metal com espoletas, para simular o estampido dos tiros. As armas de brinquedo comearam a substituir estilingues, arcos e flechas.

Anos 50
 O desenvolvimento da indstria de plstico, no ps-guerra, permitiu o lanamento de colees para os garotos: rplicas de metralhadoras usadas em combate, de carros blindados e de jipes militares.

Anos 80 
 O boneco Falcon, com suas armas, carros e avies, lanado no fim da dcada anterior, tornou-se o sonho de consumo dos meninos. 
 Surgiram as pistolas que simulam o disparo de raios laser.

Anos 90
 Lanados os games de tiro em primeira pessoa. O jogador passou a sentir uma vibrao igual  de um tiro de verdade ao segurar o controle.
 As rplicas de revlveres e metralhadoras foram alvejadas pelo discurso politicamente correto.

Anos 2000
 Em 2008, o violentssimo videogame Grand Theft Auto Iv tornou-se o produto de entretenimento mais vendido da histria em um nico dia.
 Os lanadores de artefatos de espuma e plstico comearam a substituir as cpias de armas.

COMPETIO SAUDVEL
O mineiro Henrique Lopes, de 9 anos, de Belo Horizonte, ganhou seu primeiro atirador de dardos de espuma em 2010. Ele gosta de dividir os amigos em times e disputar guerrinhas. A me, a relaes-pblicas Flvia, acompanha tudo de perto.  uma brincadeira saudvel e tranquila. No vai ser uma arma de brinquedo colorida e ldica que mudar o comportamento do meu filho, diz ela. O jogo rouba-bandeira, por exemplo, tem como meta um time tomar a bandeira do outro. Ora, essa brincadeira incentiva o roubo? Claro que no.

DE OPINIO
Thays Frst, educadora de formao crist, sempre foi contra o uso de armas de brinquedo, por consider-las um atalho para a violncia. Depois de ler um livro que apontava o natural interesse dos meninos por jogos que envolvem conquista e poder, mudou de ideia. Hoje, Thomas, de 13 anos (na foto), faz batalhas homricas de brincadeirinha com o irmo Lukas, de 12 anos, no condomnio onde vivem, em Porto Alegre. Proibir  pior, diz a me. Basta estabelecermos regras de horrios, como acontece com as outras diverses, e no h mal algum.

COM REPORTAGEM DE ANDR ELER, MARCELO SPERANDIO E SIMONE COSTA


5. COMPORTAMENTO  DATA VENIA, SEU PRADA  O MXIMO
Mulheres bem-sucedidas assumem o risco de sair do figurino-padro  e de fazer uso intensivo dos cartes. Qual a graa de ganhar bem e no torrar com marcas prediletas?
MARLIA LEONI

     As mulheres desta reportagem tm trs caractersticas em comum: adoram roupas e gastam muito com elas, alcanaram um alto nvel de desempenho profissional e j passaram por muita chateao no trabalho por se vestir de maneira menos ortodoxa que a maioria das colegas. Precisa dizer que so bonitas? Basta conferir as fotos. E concluir que sucesso pode rimar com vaidade  incluindo bastante maquiagem, cabelo, saias acima dos joelhos e saltos enormes. Em suma, praticamente tudo o que as interessadas em carreiras bem-sucedidas costumam ser aconselhadas a no usar. A verdade  que as regras de conteno continuam a valer, mas o segredo para dispensar o terninho preto com camisa branca e uma joia bem pequena, que constituem o figurino-padro das mulheres de carreira,  atingir posies de comando incontestveis. Quem tem o prprio consultrio ou s pode ser dispensada com graves prejuzos para a empresa  qual presta servio conquista o direito de no se preocupar em ser considerada ftil ou exibicionista se incendiar o carto de crdito em roupas e sapatos. E qual  a graa de comprar tanta coisa se s for possvel usar nos dias de folga? Mulheres assim, que assumem a diversidade na maneira de vestir, formam a cepa das louboutanizadas  uma brincadeira com a marca famosa de sapatos de sola vermelha.
     A advogada criminalista Fernanda Carneiro, 26, trabalha em uma das reas mais conservadoras em matria de figurino feminino, mas j se especializou em aliar competncia a um guarda-roupa de alta manuteno. Ela viaja at trs vezes por ano para Miami e volta de l com malas de roupas de marcas do topo do mundo da moda, como Balmain, Dolce & Gabbana e Alexander McQueen. Para acomodar tantas aquisies, transformou um quarto de 20 metros quadrados de sua casa em closet. Eu me visto diferente das outras advogadas que s usam terninho preto. Eu gosto de blazer pink, amarelo ou roxo, e jamais uso conjuntinho combinado, diz Fernanda. As saias alguns centmetros acima do corrente em seu meio s saem de cena quando ela tem de ir a alguma delegacia. Tem escrivo que quando me v toda arrumada acha que eu no tenho competncia e tenta me fazer ir embora logo. Disparo um arsenal de informaes tcnicas que tenho sobre o assunto e ento sou levada a srio, garante. Um ano depois de ser contratada pelo escritrio em que trabalha, a jovem advogada se tornou scia dele.
 claro que a vigilncia sobre as mulheres no desapareceu magicamente. Marissa Mayer, que saiu do Google para dirigir o Yahoo!, no comete nenhum exagero em matria de roupa, mas j precisou explicar seu gosto por boas marcas. Ela comparou o desenvolvimento de softwares s etapas do desenho de roupas bem construdas e certa vez brincou: As mulheres nunca tm pretextos suficientes para usar sapatos incrveis. Marissa sabe o que  patrulha. Estava grvida quando foi contratada para o novo posto e ser criticada qualquer que seja o perodo de licena que tirar para cuidar do filhinho nascido no fim de setembro. Com o tempo  e o sucesso , as crticas perdem importncia. A dermatologista paulistana Thais Pepe j parou de se desculpar por no usar branco. Ela sobe sem medo no Louboutin e escolhe no prprio consultrio roupas que chamam ateno, mandadas por lojas empenhadas em mimar grandes clientes. Na sua especialidade, as mdicas funcionam como vitrines do prprio trabalho e so liberadas para assumir a vaidade, mas Thais mantm certos cuidados. No d para fazer um procedimento com o decote no rosto do paciente, explica. Compensa com joias, cintos de oncinha e vestidos estampados. Muita gente ainda acha que mdica assim  menos estudiosa, diz a dermatologista. Aos narizes torcidos, responde com fatos: com 35 anos, ela d aula em faculdade e tem uma clnica com seu nome que atende cinquenta pacientes por dia.
     No mundo das mulheres profissionais de alto desempenho e gosto por roupas, as faturas do carto de crdito so de arrepiar almas mais fracas. Chris Francini, que trabalha como personal stylist em So Paulo, ajudando clientes a escolher os trajes mais favorveis, diz que 75% das mulheres s quais aconselha gastam at 10.000 reais por ms em roupas. As demais passam disso. Alm das lojas que mandam modelos s melhores clientes para que elas escolham, grandes shoppings criaram outro servio, uma espcie de orientao de compras. Ucha Meirelles  personal shopper em So Paulo e ouve apelos de executivas apressadas em busca de produtos como bolsas de grife que acomodem o iPad. Apresentar-se bem no trabalho, sem ter de entrar em grandes contradies com o prprio estilo, pode ser uma fonte de satisfao e at impulsionar a realizao profissional. Se no for levada a extremos, a gratificao trazida por roupinhas novas ajudar a compensar o esforo dedicado  profisso. O momento da compra  de prazer. Nessa hora, qualquer mulher relaxa e se esquece dos problemas, constata a psicloga Maria Luisa Guedes, professora da PUC de So Paulo.
     Carolina Duque, diretora de RH de uma indstria produtora de papel, pratica a shoppingterapia sem culpa. J pensei em usar coque, culos de grau e roupas sbrias, mas percebi que  sendo perua que eu me sinto bem, brinca. Seus noventa pares de sapatos, incluindo modelos Manolo Blahnik, Chanel e o onipresente Louboutin, s foram deixados de lado por um breve perodo, quando trabalhou numa grande montadora. Tinha de frequentar as fbricas. Era um martrio, conta. Carolina conquistou o direito ao salto: implantou, na antiga empresa em que trabalhava, um projeto que proporcionou uma economia de 6 milhes de reais. E a maioria das mulheres que vm trabalhar comigo comea a se maquiar e a usar salto, diz. Mulheres inteligentes sabem quando quebrar regras  e quando respeit-las. Priscilla Rezende, uma blogueira de moda especialista em criticar exageros estilsticos, acha que executivas no devem usar muitos colares e pulseiras  mesmo que seja tudo joia  porque o barulho deles atrapalha a concentrao em reunies. Alm disso, roupas nas cores rosa e azul-beb passam uma imagem de infantilidade, e transparncias, a de que a mulher subiu na carreira por motivos alheios  competncia. E o que realmente no d  fazer como umas mocinhas que, todo dia, tiram uma foto delas mesmas e a jogam na internet, adverte Priscilla. Exceto, evidentemente, se ganharem dinheiro com isso.

PODEROSAS E PRODUZIDAS
Trs exemplos de mulheres altamente bem-sucedidas que dispensam o terninho e tm cacife at para errar.

POLTICA JUSTA - Linda, ruiva e da esquerda trabalhista, Helle Thorning-Schmidt  a primeira mulher a governar a Dinamarca. No dia a dia, segue o padro sbrio, mas nas festas corresponde ao apelido de Gucci Helle.
ESCRITA FINA - Cala preta, camisa branca e expresso literria no fazem a cabea da escritora J.K. Rowling. A autora de Harry Potter prefere implantes de silicone, vestidos decotados e joias gigantescas.
RICA DE NOVELA - Cabelos  Donatella Versace e pose de cantora de funk s funcionam para quem tiver uma empresa de investimentos e 25 milhes de dlares em joias. Em suma, a americana Lynn Tilton.


6. RELIGIO  OBRA EM ABERTO
Passados cinquenta anos, o Conclio Vaticano II, marco na modernizao da Igreja, no alcanou sua principal misso: atrair os fiis.
ADRIANA DIAS LOPES

O acontecimento mais impactante na histria da Igreja Catlica desde os primrdios da Idade Moderna comeou s 9 horas da manh de 11 de outubro de 1962, no Vaticano. Foi quando 2500 bispos de 86 pases iniciaram uma marcha pela Praa de So Pedro em direo  baslica. Uma multido assistia  movimentao em silncio. Participavam da procisso todos os escales da hierarquia catlica, desde os patriarcas mais poderosos at bispos de dioceses mais humildes. O tempo estava ensolarado e fresco. s 10 horas, quase todos os bispos j haviam se acomodado nas arquibancadas erguidas na nave central da igreja especialmente para aquele dia. Chegara, finalmente, a vez de o ltimo da fila entrar, o papa Joo XXIII. O pontfice vinha carregado em uma cadeira gestatria sobre os ombros de funcionrios do Vaticano. A um passo do porto da igreja, ele quebrou o protocolo e pediu para descer, em um gesto de humildade. Em seguida entrou na baslica a p. A plateia se levantou e o aplaudiu durante seu percurso at o altar. Entendeu-se que o gesto representava o mais perfeito smbolo do evento que seria iniciado ali, o Conclio Vaticano II, a assembleia religiosa que pretendia ser um marco na modernizao litrgica e doutrinal da Igreja.
     O evento terminou  1 da tarde. A cerimnia contemplara uma missa e um discurso, em que o pontfice usou mais de uma vez um termo at ento raramente empregado nas falas papais: aggiornamento. A palavra, que, em italiano, significa atualizao, definiu a linha seguida pelo Conclio Vaticano II. A partir daquele momento, os bispos tinham pela frente a tarefa de discutir o rumo da Igreja para as prximas dcadas. Este no dever ser um conclio para combater erros, mas para pr a Igreja em dia (aggiornamento), definiu o papa. Ou, ainda em suas palavras, varrer a poeira do Trono de Pedro.
     Estar em dia para a Igreja era o mesmo que dizer reaproximar-se do fiel. Diz o telogo Paulo Srgio Lopes Gonalves, da Pontifcia Universidade Catlica de Campinas e organizador do livro Conclio Vaticano II, Anlises e Prospectivas: Desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945, acentuara-se a perda de influncia da Igreja na sociedade sobre questes morais e polticas. Consequentemente, ela perdeu seguidores. A postura inquisitorial exercida pela Igreja tornara-se diametralmente oposta  sociedade questionadora e ctica que se formara no perodo ps-guerra, avalia Afonso Soares, telogo da PUC-SP. Mas o tom do Concilio Vaticano II tambm estava fortemente ligado ao estilo do papa Joo XXIII. Dificilmente outro pontfice teria conduzido um evento semelhante, diz dom Demtrio Valentini, bispo de Jales, interior de So Paulo, que presenciou a abertura da assembleia. Filho de lavradores, Angelo Roncalli, nome de batismo de Joo XXIII, foi um padre apaixonado pela misso pastoral da Igreja. Dizia que a estrutura de poder da Igreja era impessoal e nada democrtica. Em 1962, Joo XXIII foi eleito Homem do Ano pela revista americana Time. Morreu no ano seguinte, vtima de um cncer no estmago.
     O Conclio Vaticano II terminou em 8 de dezembro de 1965, j sob o papado de Paulo VI (1963-1978). Com 95% de votos favorveis, os bispos aprovaram dezesseis documentos relacionados aos mais diversos aspectos da Igreja (veja o quadro nas pgs. 110 e 111). Algumas questes do conclio foram aplicadas a contento ao longo dos anos pelos papas que vieram depois  Paulo VI, Joo Paulo II e Bento XVI  e representaram avanos para a Igreja.  o caso do dilogo com outras religies.
     Outras determinaes, porm, ao ser efetivadas, deram espao a aberraes, como a desobrigao do uso da batina. A vestimenta citadina, e no a religiosa, pode at aproximar o padre de seu fiel, como almejou a assembleia da dcada de 60, mas permitiu que padres usassem inexplicveis roupas de grife, como se v hoje. Algumas propostas do conclio, no entanto, no avanaram.  o caso da colegialidade. O papa deve manter a unidade, mas compartilhar as decises da Igreja com cardeais e bispos, l-se no documento. Essa abertura permitiu o fortalecimento de movimentos catlicos fortemente ligados aos bispos locais. E nesse contexto que, a partir dos anos 70, especialmente na Amrica Latina, ganhou fora a Teologia da Libertao, que tentou adotar o marxismo em ensinamentos cristos, sob o falso argumento da opo preferencial pelos pobres. Para frear essa tendncia, o papa voltou a centralizar as decises da Igreja.
     A centralizao nos pontificados de Joo Paulo II e Bento XVI no impediu a sangria de fiis na ltima dcada. Pesquisa recente do IBGE mostra que 64,6% dos brasileiros so catlicos. Nos anos 2000 eram 73%. H cinquenta anos, 92%. A Igreja perde fiis sobretudo para os pentecostais, muito mais geis do que os catlicos sob o ponto de vista pastoral. No h dvida de que a Igreja est em descompasso com a modernidade. No se deve entender por descompasso, contudo, a condenao de situaes que firam seus legtimos dogmas, como a aceitao do aborto e o casamento homossexual. Caso contrrio, deixa de ser a Igreja. No entanto,  necessria uma Igreja mais social, menos punitiva e mais acolhedora. Alguns apontam como soluo a criao de um novo conclio para rediscutir os limites da aproximao da Igreja com seu fiel. Outros, a verdadeira implantao das propostas do Conclio Vaticano II. 

AS PROPOSTAS DO CONCLIO
As cinco principais ideias de mudana lideradas por Joo XXIII para a modernizao da Igreja.
1- LITURGIA
Antes do Conclio vaticano II: As missas eram em latim, com o padre voltado para o altar, de costas para os fiis. A celebrao era conduzida exclusivamente pelos clrigos.
O que diz o Conclio vaticano II: As missas devem ser celebradas no idioma de cada pas, com o proco de frente para o pblico. Os leigos tm de participar ativamente das missas.
O que aconteceu na prtica: As missas atraram os fiis que se sentiam excludos dos rituais, por no saber latim. A simplificao da cerimnia abriu espao para padres despreparados do ponto de vista litrgico.

2- RELAO COM OUTRAS RELIGIES
Antes do Conclio vaticano II: A Igreja combatia outras crenas. A nica salvao para a vida eterna era a religio catlica.
O que diz o Conclio vaticano II: A Igreja passa a aceitar a ideia de que, por meio de outras religies, tambm  possvel conhecer Deus e conquistar a salvao. 
O que aconteceu na prtica: A Igreja Catlica se caracteriza hoje por ser uma das mais abertas na comunicao inter-religiosa. Joao Paulo II, em 2002, reuniu 200 lderes de vrias religies na cidade italiana de Assis para um dia de oraes pela paz.

3- USO DA BATINA
Antes do Conclio vaticano II: Os padres eram obrigados a usar batina, com o objetivo de ser identificados como tais.
O que diz o Conclio vaticano II: O uso da batina no  mais obrigatrio. O propsito  fazer com que o padre se assemelhe ao fiel.
O que aconteceu na prtica: A medida abriu espao para o exagero. Hoje, h padres que usam roupas de grife, ansiosos por visibilidade nos meios de comunicao.

4- IMPLEMENTAO DA COLEGIALIDADE (Quando a Igreja  governada pelo papa em comum com os cardeais e bispos)
Antes do Conclio vaticano II: O papa centralizava a maioria das decises da Igreja.
O que diz o Conclio vaticano II: O papa deve manter a unidade, mas compartilhar as decises da Igreja com cardeais e bispos.
O que aconteceu na prtica: A pauta das reunies de bispos continua a ser determinada pelo Vaticano. Estimulou-se o crescimento de movimentos catlicos fortemente ligados ao pontfice, como a Renovao Carismtica e o Opus Dei.

5- POSTURA MISSIONRIA
Antes do Conclio vaticano II: O conceito de evangelizao era paternalista e distante dos fiis, sobretudo os mais pobres.
O que diz o Conclio vaticano II: A Igreja se autodefine como povo de Deus, em que no h diferenas entre classes sociais, e incentiva os trabalhos comunitrios.
O que aconteceu na prtica: A partir de 1970, ganhou fora o movimento da Teologia da Libertao, que tentou enxertar o marxismo em ensinamentos cristos, sob o falso argumento da opo preferencial pelos pobres, e foi rechaado pelos papas Joo Paulo II e Bento XVI.

MUDANAS MARCANTES
Ao longo dos 2000 anos de histria da Igreja, ocorreram 21 conclios. Ao contrrio do que aconteceu com o mais recente deles, o Conclio Vaticano II, que priorizou a relao da Igreja com o mundo que a cerca, as outras reunies dedicaram-se a estabelecer dogmas e defender-se de pensamentos contrrios aos seus.
CONCLIO DE NICEIA 1  Ano: 325 - Realizado no papado de So Silvestre I (314-335), estabeleceu um dos dogmas de f mais decisivos do cristianismo, o de que Jesus  Deus, e no criatura de Deus.
CONCLIO DE FESO Ano: 431 - Comandado pelo papa So Celestino I (422-432), definiu o dogma de que Maria  a verdadeira Me de Deus  e no apenas de Jesus Cristo.
CONCLIO DE TRENTO 1545-1563 - Iniciado pelo papa Paulo III (1534-1549) e encerrado por Pio IV (1559-1565), o evento se configurou como uma reao da Igreja ao avano do protestantismo, movimento cristo liderado pelo telogo alemo Martinho Lutero, cujo estopim foi a crtica  falta de tica e moral eclesial. O conclio iniciou o movimento da Contrarreforma, reafirmando a importncia dos sacramentos, da missa e do celibato.


7. HISTRIA  O NASCIMENTO DO PS-TUDO
Nunca houve um ano como 1962, quando muitas das transformaes gestadas pela juventude nasceram. Algumas s explodiram algum tempo depois.
FBIO ALTMAN

     O aggiornamento promovido por Joo XXIII na Igreja Catlica esta longe de
ter sido o nico evento extraordinrio, de repercusses perenes, de 1962. Mais correto do que dizer que o Conclio Vaticano II moldou aquele perodo  afirmar que a mudana religiosa foi, ela tambm, filha de meses muito especiais. Tinha de ter sido em 1962. Haviam se passado apenas dezessete anos do fim da II Guerra Mundial. A Europa se reconstrua. Nos Estados Unidos, a gerao conhecida como baby boomer dos nascidos no ps-guerra, chegava  maioridade. Politicamente, vivia-se a Guerra Fria, cujo apogeu se deu em 22 de outubro daquele ano, quando o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, anunciou que os soviticos haviam instalado msseis nucleares em Cuba. Os soviticos, liderados por Nikita Kruschev, e os americanos chegaram a um acordo e no se deu o pior cenrio.
     No houve guerra, ainda no se fazia amor  como descobriramos em 1968 e 1969 , mas a juventude de 1962 precisava se reinventar, precisava matar, simbolicamente, os pais que no tinham morrido em combate. Os beatniks Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, a representao literria dos anos 50, tinham de 30 a 44 anos quando escreveram seus trabalhos fundamentais. Eram velhos demais para revolues. Elvis, ao voltar do Exrcito, em 1960, estava com 25 anos e j tinha feito sua parte ao unir a msica negra ao rocknroll e sexualizar ao extremo o twist. Ento, em 1962,  sombra do holocausto nuclear, Bob Dylan cantou Blowin in the Wind em um festival de Nova York (foi em abril, Dylan tinha 20 anos) e o velho mundo dos adultos foi varrido por um furaco. A revelia de Dylan, a cano virou hino de protesto. Quando lhe perguntavam que respostas sopravam ao vento, ele dizia com ironia e escrnio: Tenho apenas 20 anos, vocs so mais velhos e mais espertos. Em outubro  espremido entre a estreia de 007 contra o Satnico Dr. No com James Bond, o espio da Guerra Fria, e a crise dos msseis de Cuba , os Beatles lanaram Love Me Do e o i-i-i (o mais velho dos quatro tinha 22 anos). O resto  histria.
     1962 foi um ano menos celebrado do que 1968, mas poucas vezes tantos eventos ocorridos em 365 dias ajudaram tanto a traduzir uma determinada inflexo histrica (veja na linha do tempo abaixo).  possvel que 1962 tenha sido um ano que chegou antes da hora. Os despertares provocados por ele demoraram a ser percebidos no cotidiano, eis outra interessante caracterstica de exatos cinquenta anos atrs  ao contrrio de 1968, quando se conheceu, na carne, na hora, a virada fundamental, ou mesmo de 1989, com a queda dos satlites comunistas em Varsvia, Budapeste, Berlim e Praga. 1962 foi um ovo de serpente que gerou uma imensa rvore de novidades que demorariam a brotar. Nele nasceu a expresso via satlite, com as primeiras transmisses globais. A plula anticoncepcional, que fora sintetizada dois anos antes, chegou s lojas com timidez  de 50.000 usurias iniciais, em dois anos foi a 1,2 milho nos Estados Unidos. Hoje, em todo o mundo, mais de 100 milhes de mulheres tomam a plula.
     O ano de 1962, enfim, representou o nascimento do ps-tudo. Os jovens  muito antes da unanimidade que se aplica a 1968  estavam matando amanh o velhote inimigo que morreu ontem. Queriam cores, e no o preto e branco niilista de seus pais. No primeiro episdio da segunda temporada do seriado Mad Men, passado em fevereiro de 1962, h festa na agncia de publicidade Sterling Cooper com a chegada de uma mquina de xerox colorida. O diretor criativo, Don Draper, digladia-se com um dilema: como fazer propaganda de uma cafeteria onde ningum com menos de 25 anos entra para tomar caf. A soluo? Os jovens, a salvao da envelhecida firma de publicidade. Na mesa de reunio um dos diretores d a deixa da renovao: Somos um pas jovem, at o presidente tem um beb. Assim foi 1962, ano em que fotos instantneas, nem sempre muito ntidas, como as de uma Polaroid, com o tempo ganharam contornos para montar o filme que nos trouxe at hoje na msica, no cinema, no sexo e na igreja.

AS NOVIDADE PERMANENTES DE CINQUENTA ANOS ATRS
FEVEREIRO
Em rbita - O astronauta americano John Glenn deu uma volta na Terra em resposta ao feito de Yuri Gagarin, no ano anterior.

ABRIL
Folk e rock - Bob Dylan cantou pela primeira vez um clssico futuro, Blowin in the Wind.

MAIO
Violncia e literatura - Anthony Burgess publicou Laranja Mecnica, que viraria filme apenas em 1971, pelas mos de Stanley Kubrick.

AGOSTO
Overdose - Marilyn Monroe morreu dormindo, possivelmente em virtude de overdose de tranquilizantes.

SETEMBRO
Ecologia - A publicao de Primavera Silenciosa, reportagem de Rachel Carson, denunciou o uso dos pesticidas. Foi a gnese, prematura, do movimento ambientalista.

OUTUBRO
Igreja - O papa Joo XXIII iniciou a reforma  sempre adiada  do Conclio Vaticano II.
I-i-i  Os Beatles lanaram Love Me Do, cano que chegaria ao topo das paradas em 1964.
Crise dos msseis de Cuba - O mundo esteve  beira de uma guerra nuclear envolvendo Estados Unidos (Kennedy, na foto com o filho John) e a Unio Sovitica.
Guerra fria no cinema - Bond, James Bond, estreou nas telas com o Satnico Dr. No e belezas como Ursula Andress de biquni.

NOVEMBRO
Apartheid - Nelson Mandela foi condenado e preso por cinco anos  ficaria 27 na cadeia.
Bossa nova - Joo Gilberto, Tom Jobim e companhia se apresentaram no Carnegie Hall de Nova York em show que viraria mito com o passar dos anos.


